Nzazi é o Nkisi do trovão, o dono da justiça, aquele que emprega a ordem de Olorún.

Na Mitologia Bantu, Tat’etu Nzazi é o raio sagrado. Ligado à justiça, ao fogo e de natureza arrojada. Mitologicamente cavalga os céus com seus 12 cães (raios) e executa a justiça. Neste caminho também anda Xango dos Yorubás.

No candomblé Bantu, Nzazi e Loango são os próprio raios. Representam a união entre os dois mundos: o Ixi (a Terra) e o Duilo (o Céu). Sua ferramenta representa bem isso com duas cabaças unidas por um pedaço de bambu. É a própria representação do raio que num piscar de olhos cruza o céu e cai na terra transformando a matéria.

Nzazi

Não conseguindo se estabelecer por causa de seu caráter violento e imperioso, Nzazi se fez estabelecer pela força, pois os moradores não aceitavam seu método de julgar e condenar a morte ladrões e mentirosos, fazendo a ordem se manter pela violência. Depois que se estabeleceu o reino se tornou prospero e graças aos conselhos que Lembarenganga lhe dava todas as vezes que visitava o amigo, tornou Nzazi menos violento.

No reino de Nzazi havia muitos cavalos e carneiros que ele fazia questão de supervisionar cuidadosamente, mas um dia saiu em busca de novas conquistas com seu exército montado em seus melhores cavalos e suas terras foram invadidas por ladrões que roubaram todos os carneiros e os que não puderam levar foram mortos. Quando Nzazi ficou sabendo do acontecido voltou a seu reino e lá encontrou apenas um casal de carneiro que conseguiu escapar do massacre. Nzazi então levou o casal de carneiro até o reino de Lembarenganga e pediu que o amigo cuidasse deles até sua volta, pois iria ao encalço dos ladrões, e assim fez Lembarenganga que os levou para o duilo em segurança.

Durante muito tempo Nzazi procurou pelos ladrões que aterrorizavam aldeias e reinos, e no alto de uma montanha sagrada que cuspia fogo, encontrou com “uiangongo” (aquele que tinha o poder do fogo), diante de tamanho poder Nzazi se curvou e foi interrogado: o que faz na montanha de fogo?

Então Nzazi respondeu: venho em busca de ladrões que saquearam meu reino e mataram as criações…

“uiangongo” então lançou mão de um pó mágico que entregou a Nzazi e disse: este será o seu exército contra os ladrões, quando os avistar lance sobre eles o pó mágico. Nzazi agradeceu maravilhado por tanto poder e continuou sua busca, tempos depois encontrou com os ladrões e enfurecido lançou sobre eles o pó mágico que se transformavam em pedras incandescentes que dizimou todos, e os que conseguiram escapar das pedras foram massacrados por Nzazi.

Durante toda a busca dos ladrões Nzazi percebeu que um ruído vinha dos céus (duilo) e cada dia que passava este ruído aumentava: kabrum, kabrum, kabrum

Então se dirigiu até o reino de Lembarenganga para de volta resgatar o casal de carneiros lá deixado em companhia do amigo, ao avistar Lembarenganga perguntou dos animais e Lembarenganga explicou a Nzazi que ele havia ficado muito tempo fora e que os carneiros procriaram e aquele barulho que ouvia eram os carneiros travando batalhas e cabeçadas, pois seus chifres faziam enorme barulho kabrum, kabrum.

Lembarenganga devolveu todos os animais a Nzazi e lhe fez uma advertência, como os carneiros haviam sido criados no duilo (céu) não mais poderiam servir de comida a ele e seus descendentes, Nzazi atendeu ao pedido e deixou de presente ao amigo um casal de carneiros que até hoje se houve no céu suas batalhas kabrum, kabrum.

Chegando ao reino Nzazi advertiu a todos, não comam mais deste animal, pois ele agora é sagrado, todos perguntaram a Nzazi como ele havia dizimado os ladrões, então contou a todos do pó mágico que havia ganhado de “uiangongo” e que trouxera um pouco com ele, mas com medo que alguém roubasse, Nzazi então decidiu guardá-lo em segurança e não encontrando lugar algum seguro para tamanho poder, resolveu engolir o pó, Nzazi então começou a soltar lavaredas de fogo pela boca e pedras incandescentes queimaram quase todo seu reino. Nzazi então foi obrigado a se isolar, pois toda vez que ficava irado fogo lhe saia pelas ventas e pedras de fogo eram lançadas em todas as direções, seus súditos então reconheceram seu poder e só lhe chamavam em ocasiões de perigos, e Nzazi atendendo ao pedido dizimava exércitos de ladrões com sua fúria e pedras de fogo…

Loango

Lembarenganga mais uma vez se preparava para sua caminhada por todo o iungo, quando se lembrou do amigo nzaze, e decidiu então visitá-lo para ver se havia prosperado em suas terras. E como era de costume toda vez antes de partir se dirigia até a casa de um mubiki para saber se a viajem seria calma ou se precisariam fazer oferendas para se precaver de eventuais perigos. Mubiki então consultou os oráculos e revelou a lembarenganga que ele deveria levar em sua bagagem sabão da costa, uma cabaça contendo água e três vestes. Que deveria também fazer oferendas para o senhor dos caminhos e das encruzilhadas. Lembarenganga então atendeu parte dos conselhos dado pela mubiki, pois se recusou a fazer oferendas para o senhor das encruzilhadas e caminhos. Logo ao nascer do dia lembarenganga iniciou a viagem e depois de muito andar chegou até uma encruzilhada que poderia levá-lo a quatro caminhos e como já fazia algum tempo que não visitava o amigo nzazi ficou duvidoso por qual caminho deveria seguir, mas ao longe vinha outro viajante que fumava um cachimbo e cantarolava, e quando chegou ao centro da encruzilhada lembarenganga perguntou de onde vem meu bom homem. E ele então respondeu do reino de nzazi.

Então lembarenganga desejou votos de prosperidade e seguiu viajem, mas apenas encontrou uma estrada com muito carvão, pois era o caminho das minas e depois de muito andar já com a vestimenta toda suja resolveu voltar novamente ao centro da encruzilhada onde se lavou e trocou as vestes. E como já anoitecia lembarenganga resolveu descansar para partir logo cedo por outro caminho. Ao acordar havia um homem sentado no centro da encruzilhada e tocava uma flauta que a melodia fazia as plantações crescerem. Então lembarenganga indagou o homem que tocava tão bela melodia: de onde vem?

e respondeu o flautista: andei por todo o dia nesta estrada e só encontrei carvão então voltei e segui por esta outra e encontrei um reino muito rico.

Lembarenganga então achou que fosse o reino do amigo nzazi e seguiu por onde o flautista havia dito, mas o caminho era cheio de árvores espinhosas que rasgaram as vestes de lembarenganga e lhe furaram os pés. E mais uma vez lembarenganga voltou ao centro da encruzilhada e se lavou, mas desta vez não mais erraria, pois só lhe sobrara um único caminho a seguir e este teria que ser o certo. Andou durante todo dia e ao entardecer sentou-se a sombra de uma árvore onde resolveu passar a noite. Ao amanhecer avistou um homem no caminho que vinha chupando o próprio dedo e lembarenganga então perguntou: porque age assim bom homem?

Que respondeu: estou com fome, pois o alimento que necessito está no alto desta árvore e para não acordá-lo fiquei andando pelo caminho até que acordasse.

Lembarenganga então agradeceu e ofereceu ajuda para que o alimento fosse tirado da árvore.

O viajante então pediu para subir nos ombros de lembarenganga para tirar o cacho do referido fruto. Atendendo ao pedido deixou que ele subisse e por horas ficou ali tentando cortar o cacho e sempre cantando, quando lembarenganga já não agüentava mais o peso pediu que o viajante descesse e este derrubou o cacho por sobre lembarenganga que ficou todo sujo de óleo de dendê, pois o fruto que se referia o viajante era o dendê. Quando viu lembarenganga todo sujo e cansado se pôs a rir e cantando foi em direção ao castelo de nzazi. Lembarenganga então percebeu que aquele indivíduo que por três vezes o havia enganado era pambunjila o senhor dos caminhos e encruzilhadas aquele que se negara a fazer oferendas, mas como já estava próximo ao reino de nzazi prosseguiu viajem.

Pambunjila chegou primeiro ao reino e soltou o cavalo que nzazi tanto gostava e o tocou em direção de lembarenganga, que assim que o avistou tratou de lhe oferecer um pouco de alimento, com a intenção de levá-lo de volta ao reino do amigo. Pambunjila então alertou os guardas que alguém estava a roubar o cavalo de nzazi que saíram em busca do ladrão, e ao ver lembarenganga com o cavalo e todo sujo de dendê, bateram muito em lembarenganga que aprisionado não teve a oportunidade de se explicar, e por alguns anos ficou jogado na prisão do palácio. Mas o reino de nzazi já não era o mesmo. Os animais não procriavam, as mulheres não davam mais a luz, e as plantações já não cresciam, e passavam por toda série de catástrofes, nzazi então pediu para que um mubiki, consultasse os oráculos para saber qual o motivo de tanta dificuldade, mubiki revelou a nzazi que em seu porão havia um homem preso injustamente e nzazi foi até lá e reconheceu o amigo que todo sujo e o corpo quebrado pelas pancadas dos guardas tinha ficado por anos trancafiado. Nzazi mandou chamar um de seus servos e ordenou que o amigo lembarenganga fosse lavado e suas vestes trocadas, e assim o servo o fez. Nzazi ordenou que fosse feita uma grande festa em homenagem ao amigo e que todos o tratassem muito bem e se desculpando por todos os mal tratos que haviam cometido contra ele.

Então depois que o reino de nzazi voltou a prosperar novamente, ordenou que seu servo acompanhasse lembarenganga até sua morada, no caminho lembarenganga perguntou ao servo se era feliz servindo nzazi. Que respondeu: fui feito escravo há muito tempo, pois minha morada era junto ao rio lwango que significa “grande abertura da boca”, desde este tempo não mais tive escolha…

Mas tamanho foi o carinho destinado a lembarenganga que o mesmo determinou que agora o servo fosse tratado como majestade e suas vestes seriam apenas brancas e como lembrança de seu povo seria chamado de luango que para muitos também significa “paraíso”…

Vive até hoje luango em companhia de lembarenganga que quando não agüenta caminhar é carregado nas costas por luango…

Aquele que não é descendente direto e nzazi e nem tinha titulo de majestade…

Luango hoje em muitos abaças é lembrado às 4 horas da manhã, no cantar do galo é quando ouvimos suas rezas em posição de mão de pilão e nos redimindo dos nossos erros, até mesmo nzazi se faz presente para reverenciar aquele coroado por lembarenganga…

E para que esta passagem de lembarenganga seja lembrada, fazemos o ritual das águas de lembarenganga onde lavamos todos os seus assentos fundamentais…

Informações:

Cor: Marrom (Luango) e Vermelho e Branco (Nzazi).

Dominio: Justiça e as Pedreiras.

Plantas de Nzazi:

Abacá, Abiu, Abricó, Alfavaca, Alfavaca Roxa, Amor agarradinho, Angelicó, Aperta Ruão, Aroeira  (Kisaba Mulongo), Azedinha  (Kisaba Unjimu), Banana, Baobá  (Kibatuilo), Beldroega Grande, Benção de Deus, Bétis Cheiroso  (Masana’nzadi), Bilreiro, Cabaça, Cacau, Camapu, Cambará, Capim Rabo de Burro, Caqui, Caruru, Caruru da Bahia, Castanha do Pará  (Kibatuilo), Cavalinha, Coco, Embaúba, Erva de São João, Erva Tostão, Espirradeira Roxa, Fava de Xangô, Flamboyant, Flamboyanzinho, Folha da Fortuna, Folha de Fogo, Fruta de Conde, Gameleira, Gameleira Branca, Gervão, Gervão Roxo, Gôfer  (musanga), Goiaba, Jaborandi, Jaqueira, Junquinho, Juta, Levante, Maçã, Macaxeira, Macieira, Mamão, Mandioca, Manga, Manjerona, Maracujá, Marmeleiro, Melancia, Melão, Mimo de vênus, Monsenhor Amarelo, Morango, Morangueiro, Mulungu, Musgo da Pedreira, Nega-mina, Nim, Obá, Orogbo, Panacéia, Para Ráio, Pau de Colher, Pau-Pereira, Pêssego, Pessegueiro, Pinhão Branco, Pinhão Roxo  (Kitote), Pixirica, Quiabo, Quiabo Roxo, Romanzeira, Sabugueiro, Taquaruçu, Tiririca, Urucuzeiro, Vence Demanda.

Plantas de Loango

Agrião do Pará, Bilreiro, Caruru, Manjericão Roxo.