No início dos tempos, os pântanos cobriam quase toda a terra. Faziam parte do reino de Zumbarandá e ela tomava conta de tudo como boa soberana que era. Quando todos os reinos foram divididos por Olorun e entregues aos orixás, uns passaram a adentrar nos domínios dos outros e muitas discórdias passaram a ocorrer.

E foi dessa época que surgiu esta lenda. Nkosi precisava chegar ao outro lado de um grande pântano. Havia uma séria confusão ocorrendo e sua presença era solicitada com urgência. Resolveu então atravessar o lodaçal para não perder tempo. Ao começar a travessia, que seria longa e penosa ,ouviu atrás de si uma voz autoritária:

– Volte já para o seu caminho rapaz!

Era Zumbarandá, com sua majestosa figura matriarcal, que não admitia contrariedades.

– Para passar por aqui tem que pedir licença!

– Como pedir licença? Sou um guerreiro, preciso chegar ao outro lado urgente. Há um povo inteiro que precisa de mim.

– Não me interessa o que você é, e sua urgência não me diz respeito. Ou pede licença ou não passa. Aprenda a ter consciência do que é respeito ao alheio.

Nkosi riu com escárnio:

– O que uma velha pode fazer contra alguém jovem e forte como eu? Irei passar e nada me impedirá!

Zumbarandá imediatamente deu ordem para que a lama tragasse Nkosi para impedir seu avanço. O barro agitou-se e, de repente, começou a se transformar em um grande redemoinho de água e lama. Nkosi teve muita dificuldade para se livrar da força imensa que o sugava. Todos os seus músculos retesavam-se com a violência do embate. Foram longos minutos de uma luta sufocante.

Conseguiu sair. Entretanto, não conseguiu avançar e, sim, voltar para a margem. De lá gritou:

– Velha feiticeira, você é forte, não nego. Porém, também tenho poderes. Encherei esse barro que chamas de reino com metais pontiagudos e nem você conseguirá atravessá-lo sem que suas carnes sejam totalmente dilaceradas.

E assim fez. O enorme pântano transformou-se em uma floresta de facas e espadas que não permitiriam a passagem de mais ninguém. Desse dia em diante Zumbarandá aboliu de suas terras o uso de metais de qualquer espécie. Ficou furiosa por perder parte de seu domínio mas, intimamente, orgulhava-se de seu trunfo:

– Nkosi não passou!